Entrevista : Rui Palha



Sem qualquer dúvida, a minha primeira entrevista tinha de ser com o nosso amigo Rui Palha ! 🙂 É um fotógrafo de rua de longa data com bastante talento e reconhecido a nível internacional.

Como nasceu a tua paixão pela fotografia de rua?

Essa paixão apareceu nos meus 14 anos de idade quando comecei a ficar mais atento a tudo o que me rodeava, com a avidez própria de um miúdo, de aprender rapidamente a viver e compreender a vida, observando o modus vivendi das outras pessoas, anónimas ou não. Foi uma pequena Minolta 16 que me permitiu aprender imenso. Cada foto que fazia escrevia num pequeno bloco toda a informação associada à mesma: hora do dia, condições de luz, abertura, velocidade, etc. Mais tarde, depois do rolo revelado, estudava todas as asneiras cometidas e tentava remediá-las na seguinte “sessão” fotográfica. Fui sempre um autodidata.

Quando tinha 18 anos construi a minha primeira câmara escura, de um modo muito artesanal, mas bastante funcional e onde revelava e imprimia as minhas fotografias (e as dos meus amigos). Era uma tarefa de que não gostava especialmente, sentia que estava a “gastar” o tempo que me faltava para andar pelas ruas, que era o que eu mais gostava de fazer. De qualquer modo, foi uma experiência da máxima importância e com a qual aprendi muito.

Continuas a sentir a mesma adrenalina que sentias no início?

Nunca pensei nisso, mas agora que perguntas …. acho que sim. A adrenalina está sempre num nível altíssimo quando fotografo, seja o que for. Deve ser a razão porque chego sempre completamente estoirado a casa, depois de um dia a fotografar.

Optaste sempre por fotografia a preto e branco ? Nunca, sentiste vontade de publicar fotografias a cores ?

Apesar de ter utilizado cor, por vezes, no passado, sempre gostei e preferi p&b, sem dúvida. Diz-se, frequentemente, “sem cor, sem mentira”, e, de certo modo, concordo com este conceito.

Se, ao olhar-se para uma fotografia a p&b, a sensação for agradável ou se a imagem for cativante é porque a imagem “conta” uma história sem artifícios nem elementos distractivos e, com certeza, a fotografia é boa. Por vezes uma fotografia colorida é apelativa só porque a combinação das cores é bonita e coerente.

Isto não quer dizer que eu não goste de fotografia a cores. Há grandes fotojornalistas que utilizam cor nas suas fotos. Apesar disso eu só utilizo p&b. Alguém escreveu acho que foi Ted Grant, e eu concordo completamente, “Se forem utilizadas cores mostra-se o colorido das roupas, se for utilizado p&b mostra-se a “cor” da Alma”.

Achas que ao longo dos anos, com a maturidade e experiência, se torna mais fácil fazer “boa” fotografia de rua?

Acho que não sei mesmo responder a esta pergunta. Creio que nunca é fácil fazer-se “boa” fotografia de rua. Claro que a experiência ajuda, e muito, em certas vertentes, principalmente técnicas e até na forma de “olhar” e “ver”. Há montanhas de erros que já não se cometem, ou cometem-se menos, mas o grau de exigência também vai aumentando e a insatisfação com o que se vai fazendo no dia a dia é cada vez maior.

Lembro-me que cada dia que saía para fotografar gostava, pelo menos, de uma/duas fotografias. Creio que agora gosto de uma ao fim de 1 mês de saídas.

Claro que é preciso ter sorte quando se anda pelas ruas, momentos apelativos não se encontram todos os dias, nem em todo o lado. Por isso, torna-se imprescindível andar sempre com a câmera e estar o máximo de tempo possível na rua.

Sentiste ou ainda sentes algum receio quando te aproximas demais da(s) pessoa(s)?

Não. Nunca senti qualquer tipo de receio pela proximidade com as pessoas, seja em que ambiente for. Antes pelo contrário, creio que tenho uma certa atração pela proximidade e pela eventual sensação de “risco” eminente. Aí é que a adrenalina sobe ao extremo.

Apesar de não poder dizer que tudo corre sempre bem, por vezes há problemas, na maior parte das vezes não há situação nenhuma em que uma conversa frontal e sem rodeios não resolva.

Sei que muitas vezes ofereces a fotografia, em formato papel, à pessoa que foi fotografada. Podes-me dizer qual o motivo que te leva a fazer isso?

Sempre senti que as fotografias que fazemos aos “modelos de rua”, “modelos” necessariamente ocasionais, são “roubos” autênticos e acho que elas pertencem sempre à pessoa que serviu de “modelo”, sem sequer dar por isso.

Tenho tido enormes surpresas, gratas e ingratas, cada vez que entrego uma fotografia a alguém a quem “roubei” a cara, expressão, etc… mas na grande maioria das ocasiões, sinto que torno as pessoas mais felizes ao constatarem que afinal alguém lhes ligou e as respeitou como pessoas.

Assim tenho feito imensos “amigos de rua” e tenho aberto algumas portas que seriam muito difíceis de abrir, noutras situações.

A fotografia de rua é uma arte, e cada um tem a sua própria habilidade, mas tens algum fotógrafo como referência ou inspiração ?

É mesmo uma Arte, concordo contigo a 100%, apesar de ainda não ser muito considerada deste modo.

Claro que é impossível, a quem anda pelas ruas, não se sentir inspirado pelo Cartier-Bresson, Winogrand, Erwitt … não significa isto que se deva tentar imitá-los, antes pelo contrário, quando se admira ou se inspira em alguém, creio, na minha modesta opinião, que se deve tentar ser criativo, diferente. A inspiração implica, necessariamente, a quase obrigatoriedade de uma explosão de criatividade, para não se cair na vulgaridade e na cópia barata que, infelizmente, é o que mais se encontra neste país tão pequeno.

O facto de uma fotografia fazer “relembrar” algum autor “sonante” não é negativo. Negativo é quando uma fotografia tenta ser uma cópia barata de fotografias já existentes.

Sem querer fazer qualquer tipo de publicidade, penso que a ultima câmera fotográfica que utilizaste foi a fujifilm x100. Muito boa! O que te levou agora a fotografar com a Leica? Algum aspeto que queiras destacar?

A X100 não foi a ultima câmera fotográfica que utilizei. Antes da Leica utilizei, e muito, a Sony RX1, também com uma objectiva fixa de 35mm, tal como a X100. Ainda a utilizo, em certas ocasiões, é uma câmera com uma qualidade de imagem fantástica e com a minha distância focal preferida, 35mm, mas muita lenta, infelizmente, para a fotografia de rua.

A Leica é uma paixão antiga. Durante alguns anos usei uma Leica M4, com 35 e 50mm. A qualidade de imagem era fantástica. As lentes Leica são imbatíveis. Quando se entrou na era digital, a experiência que tive com as primeiras Leicas digitais não foram muito boas, até que apareceu a Leica Q, que considero uma câmera excelente, sob quase todos os aspectos.

Depois tive a oportunidade de testar a Leica M-D, a convite da Leica Ag, e adorei. Relembrei os velhos e bons tempos do filme. Aliar a funcionalidade do digital, sem ter de utilizar os processos tradicionais para revelação do filme, às características “perdidas” nas novas câmeras foi, de facto, uma experiência muito enriquecedora para mim. A Leica M-D não tem display, balanço de brancos, possibilidade de mudar a medição de luz … menus …. nadinha, tem simplesmente um anel para escolher a sensibilidade que se quer utilizar, a hipótese de corrigir os EV, caso se opte pela prioridade à abertura, em vez do manual e mais nada… eu gostei muito. Da qualidade das lentes Leica, nem vale a pena falar, são imbatíveis.

Para além de conhecer bem a câmera fotográfica, que conselho darias a quem deseja começar com este tipo de fotografia?

Respeito, atenção, concentração, saber ouvir, valentia e coragem, proximidade. Ser muito crítico e exigente consigo próprio. Tentar ser criativo, diferente de todos os outros fotógrafos de rua. Ficar sempre satisfeito com o trabalho de rua antes de o disseminar/publicar por todo o lado. Disfrutar as Pessoas, a Vida e a Rua. Deste modo disfruta-se o mundo inteiro e é uma via para crescer sob todos os aspectos.

Quero agradecer ao Rui Palha, toda a disponibilidade e simpatia na realização desta entrevista que foi, para mim, muito gratificante.

Ainda têm a oportunidade de poderem ver a exposição : “Urbanices” – Exposição de fotografia que, devido ao número elevado de visitantes e após muitas solicitações, foi adiada até 31 de Julho 2016 !

Se o quiserem ver em ação, vejam o meu artigo : Explorando o Porto com a Leica M-D. Podem também seguir o excelente trabalho do Rui Palha no Instagram e facebook.

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